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Por que deixar seu filho dormir com você?

Quem me acompanha já sabe: além de Pediatra, eu sou mãe de 2, com o 3° a caminho, na barriga. Meus filhos tem 9 e 6 anos, e até hoje, a cama e o quarto do casal são o lugar onde eles tem livre acesso, onde dormem quando querem (e quase sempre querem). Onde a gente se diverte, interage, conta histórias e fala do nosso dia antes de dormir.

A gente vive em uma sociedade com valores invertidos. Você que tem família deve concordar comigo que a coisa mais importante da sua vida é sua família, o amor que sente por ela. Mas contraditoriamente, mais de um terço do seu dia você passa fora de casa, trabalhando pra garantir o sustento daqueles que você ama. Volta cansado, sobrecarregado e cheio de compromissos que talvez você nem teria escolhido ter, caso tivesse opção. Aí vem as coisinhas mais importantes da sua vida (seus filhos), cheios de demandas e doidos pela sua atenção e companhia. Resta pouco tempo com eles. Talvez você não consiga dedicar pra eles nem uma pequena parte da atenção que você dedica ao que seu chefe pediu (mesmo que seu chefe seja você, mesmo que seu trabalho seja a sua casa).

E como deveria ser, o outro um terço da sua vida, você passa dormindo (sim, uma noite de sono ideal tem em torno de 8 horas). Mas te falaram que os filhos tem que dormir no quarto deles, na cama deles. Você está cansado de um dia intenso, e acaba nem questionando isso. E, o pior, acaba lutando contra uma força extremamente poderosa da natureza: a força da conexão entre mães/pais e filhos, e a vontade que ambos tem de estar juntos.

Sua cria, às vezes até já maiorzinha, pede pra ficar junto de você enquanto dorme, nesse um terço da sua vida que você vai passar dormindo. Mas você não pode. Aprendeu que filhos tem que dormir nos seus quartos para aprenderem a ser independentes. Passa boa parte das poucas horas que está com eles lutando contra esse instinto natural (você podia simplesmente aceitá-lo e se render a força da conexão natural entre pais e filhos, mas você perde esse tempo precioso.

Ensinando que ele não precisa se apegar tanto quanto o coração dele manda, lutando contra um instinto natural de conexão e proteção), e no dia seguinte, quando vocês acordam, depois de uma noite distante um do outro, você levanta pront@ pra outra. Pront@ pra outro dia de trabalho. Se despede do seu bem mais valioso, e vai lá dedicar as horas da sua vida ao seu trabalho.

O que resta ao seu pequeno? As poucas horas em que você de fato consegue parar e estar com ele no fim da noite? (Se é que de fato você consegue largar o celular, ou a necessidade de arrumar a casa, ou de fazer a comida, ou de resolver tudo que você não conseguiu resolver durante o dia.) E assim o seu bem mais precioso, fica sem o bem mais precioso que você poderia dar a ele: o seu tempo.

Mas o tempo passa, ele cresce e, naturalmente, ele vai ganhando o mundo, perdendo essa necessidade de conexão intensa que nossas crianças tem com a gente. Eles não querem mais estar tão juntos quanto a gente gostaria. E perdemos momentos preciosos de conexão. Momentos que nem nos custariam tanto, por que a gente estaria dormindo mesmo.

Pra nós, adultos, talvez a cama compartilhada represente dormir um pouco mais desajeitado, com menos espaço, talvez ter que arrumar outro lugar ou hora pra um momento íntimo com o/a companheir@. Talvez acordar um pouco mais de vezes.

Mas pra criança, aqueles pequenos despertares noturnos em que ela pode perceber que por perto está alguém em q ela pode confiar, sentir o toque daquel@ que ela mais ama e confia. Tudo isso é mensagem pra aquele cerebrozinho em desenvolvimento dizendo que ela é amada. Que ela pode se sentir segura. Que ela pode sim se desenvolver, buscar novos horizontes e desafios, pode sim ser independente, por que ela é cuidada e amada. Ela tem um porto seguro, que nem precisou dizer a ela que era o Porto Seguro dela. Ela sente isso todas as noites, sempre que precisar.

Que os nossos pequenos, mesmo que já grandes, possam sentir que o nosso espaço é como o nosso coração pra eles. Está sempre aberto a recebê-los.

 

Que a gente possa se desvencilhar dessas amarras e crenças sociais que nos fizeram acreditar, e enfim seguir o nosso melhor guia: o nosso coração.

Laura Ohana - Doctoralia.com.br